“Um líder não se impõe!
É eleito pela maioria dos associados”
Num momento decisivo em que o Juventude Gaula, por direito próprio, ganhou a possibilidade de subir à III Divisão Nacional, o actual número dois da Direcção, Roberto Pereira, aceitou dar uma grande entrevista ao Sítio Oficial. Considerado por muitos com uma “peça chave” no crescimento do clube, reclama mais apoio para a Instituição que «mais cresceu nos últimos anos no Concelho de Santa Cruz». Confrontado com a possibilidade de assumir a presidência, Pereira respondeu assim: «Um líder não se impõe! É eleito pela maioria dos associados».
Sítio Oficial (SO) - Foi jogador, Vice-Presidente para o Futebol, e é actualmente vice-presidente da Direcção. Em função deste histórico como analisa o crescimento do clube?
Roberto Pereira (RP) - Para mim que tive, e tenho, o privilégio de participar activamente neste projecto, encaro-o de uma forma natural e sustentada. Quando se tem um projecto desportivo credível e ambicioso, uma equipa de trabalho capaz, o resultado só pode ser de sucesso.
Em qualquer situação da vida, o risco, ainda que umas vezes mais calculado, está sempre inerente. O grande mérito do trabalho que tem sido desenvolvido nos últimos cinco anos, tem a ver um pouco com isso: com o risco e a ambição das pessoas em quererem demonstrar que era possível tornar o Juventude Gaula numa marca de referência, projectando também a Freguesia no espaço Regional. Depois, a visão de futuro e o muito espírito de sacrifício fizeram o resto.
Há uns dias atrás chegou-me às mãos um prospecto cujo título era “o segredo dos campeões não está à vista de toda a gente”. Isto para lhe transmitir a ideia de que aquilo que foi conseguido (quer os títulos, quer o crescimento) deve-se aos atletas, técnicos e demais colaboradores do clube e a um trabalho quase invisível que só quem está dentro do clube consegue sentir. É claro que, da parte da Direcção, existe uma pontinha de orgulho pela visão de escolher as pessoas certas para os lugares certos.
Eclectismo é
para manter
SO - Para além do Futebol, o clube dispõe de uma série de modalidades (btt, triatlo, natação, basebol, futsal e bilhar). Na sua opinião, o ecletismo deverá ser o caminho, ou pelo contrário deverá haver uma aposta maior no Futebol rumo a uma via mais profissionalizante?
RP - Uma coisa não invalida a outra. Se reparar, 80% do orçamento das modalidades ditas amadoras provém de patrocínios privados, ou seja, não estão dependentes, nem podem estar, exclusivamente da tesouraria do clube. Depois, o Juventude Gaula é já o mais eclético do Concelho de Santa Cruz, mas isso não significou um desvirtuamento daquela que tem sido a política da actual Direcção: a aposta na formação e, concretamente, na modalidade em que reúne mais atletas (cerca de 200) , no futebol.
Se quiser outro exemplo, veja o caso da equipa de futebol sénior que ascendeu esta época à III Divisão Nacional. Apesar dessas seis modalidades que referiu, conseguiu ascender a um panorama semi-profissional como é a III Divisão Nacional.
Os clubes não se podem fechar a uma modalidade. Temos que ter um leque alargado para que os jovens, e não só, da nossa Freguesia tenham opções de escolha. No entanto, tenho que reconhecer que o atraso nas subvenções do IDRAM dificulta um pouco o orçamento das secções das diferentes modalidades, impedindo o clube de as dotar de melhores condições.
A questão do século
SO - É sabido que este clube, em analogia com os restantes clubes da Madeira, e não só… passa por dificuldades. Na sua opinião para além do aspecto económico, quais são os principais entraves ao crescimento do clube?
Na minha opinião, o aspecto financeiro, aliado à “dúvida do século”, são mesmo as principais dificuldades.
Repare: o Juventude Gaula foi, segundo a Demografia Federada do IDRAM, o clube que mais cresceu no Concelho de Santa Cruz nos últimos anos, sendo já o terceiro mais representativo a esse nível. Se a nível governativo, embora com o tal atraso, esse crescimento, em princípio, vai ser reconhecido, no que diz respeito ao Município de Santa Cruz, tarda em se fazer justiça. E não quero com isto dizer que estamos contra o Município. Pelo contrário! Sabemos que a autarquia também passa por dificuldades financeiras, mas não podemos, face a esse crescimento, continuar a receber o mesmo apoio que há dez anos só pela justificação que está institucionalizado. Não podem ser sempre os mesmos a “pagar a factura”. Trata-se de uma questão de reconhecimento e justiça que o clube e a Freguesia mereciam ver revistos.
Quanto à “questão do Século”, está relacionada com a utilização do Complexo Desportivo da Associação de Futebol da Madeira, em Gaula. Após várias reuniões, e muito sacrifício, lá se conseguiu esta época um acordo que permitisse ao clube trabalhar de uma forma quase normal. Contudo, já não sabemos como vai ser na próxima época. A despesa mensal (mil e cem euros) é incomportável para ser sustentada apenas pela tesouraria do clube e temo que o arranque da próxima época volte a estar em causa. E aqui é, outra vez, uma questão de bom senso. Não entendemos a razão pela qual o Juventude Gaula tem de ser o único clube do concelho a pagar a utilização do “seu” campo.
SO - Esteve durante cinco épocas na liderança do Futebol. Pela experiência que tem na área, como analisa a gestão do futebol actualmente?
RP - Para lhe ser sincero, não estou em condições de avaliar a actual gestão do futebol pelo facto de, esta época, não ter acompanhado no terreno. Depois, mesmo que estivesse em condições, não o faria em público. As pessoas que estão actualmente no futebol mereceram o apoio da Direcção, e por inerência o meu. A exigência no futebol, por ser a principal modalidade do clube, é sempre elevada e quero acreditar que, com tempo, empenho e muita determinação o clube vai continuar a manter a sua linha de crescimento.
Marco histórico e…
de responsabilidades
O que achou da época desportiva da equipa sénior do CS Juventude Gaula e já agora desmistifique-nos esta questão: na sua opinião o clube deve ou não ir para a Série Madeira?
Acho que é opinião consensual, mesmo da generalidade dos nossos adversários, é que uma equipa maioritariamente formada por jogadores oriundos da formação, que jogou apenas por “amor à camisola”, só merece elogios. O grande mérito é dos atletas e da equipa técnica, liderada por uma pessoa com quem tenho aprendido muito: o Fernando Luís. Pena foi que tivessem desvirtuado na secretaria, o que se passou em campo.
Quanto à subida à Série Madeira, pelo que sei, o Regulamentos da Federação Portuguesa de Futebol, contrariamente ao que se passou na época anterior, a isso obriga.
Não deixa de ser um marco histórico para um clube que surgiu há duas épocas atrás com futebol sénior estar a caminho dos “nacionais”. É um dado que deixa-nos orgulhosos, mas que acresce responsabilidades, sobretudo de âmbito financeiro; não sei se o clube estará preparado para tal.
Presidente?!
Um líder não se impõe.
SO - O actual presidente tem manifestado alguma relutância em continuar. Na possibilidade de o professor Eugénio querer deixar o cargo, em função do seu estatuto no clube, encara a possibilidade de assumir a presidência ?
RP - [risos…] O meu estatuto é igual ao dos outros 599 sócios! Tenho os mesmos direitos e os mesmos deveres.
Um líder não se impõe! É eleito pela maioria dos associados. Portanto, dificilmente aceitaria assumir interinamente a presidência do clube.
Depois, o cargo de presidente (ainda que seja o mais mediático, e também de responsabilidade acrescida) nunca me seduziu. Mais importante que o cargo que exercemos, é o contributo que oferecemos à Instituição que representamos.
Não é a primeira vez que me colocam essa questão; em situações semelhantes, outras pessoas já o fizeram. É um sinal que reconhecem na minha pessoa capacidades e qualidades para exercer o cargo e só tenho que ficar grato. Contudo, não sei fazer futurologia para lhe dizer se um dia serei ou não Presidente, mas posso lhe dizer que se houvesse hoje eleições, votaria no actual presidente. Compreendo o cansaço do Eugénio, que é até um pouco semelhante ao meu. Pelo empenho e dedicação que tem dado a esta “casa”, merecia que se resolvessem rapidamente, e de uma vez por todas, algumas questões para que continuasse a desempenhar as funções para as quais foi eleito.
Entrevista realizada por: Luís Pereira *
2010-06-22